460 ANOS?

Esta  é uma republicação de um artigo do dia 8/4/11, no qual discuto a questão do “quinhentismo” de Santo André.  

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Há dois meses  postei nesse espaço um artigo da Agência Usp de Notícias que questionava a ideia do “quinhentismo” das cidades do Grande ABC. Segue o link: A Farsa dos 400 e tantos anos de Santo André

Hoje, dia de comemoração do “anivérsário” de Santo André, retomarei esse tema e o aprofundarei; sem medo de parecer “estraga festas” ou algo parecido.

Sobre esse tema, começarei com uma citação de Ademir Médici, importante pesquisador da região; em seu livro “Migração, Urbanismo e Cidadania”:

“Hoje, toda a tentativa de explicar esta formação passa pela constatação de que o ABC é uma região de trabalhadores, em todos os setores e municipios Em que pese a tentativa das oligarquias que sempre conseguiram levar essa discussão de formação para o quinhentismo, com a absurda história de que o ABC é a “terra mãe dos paulistas” “

Outra citação que pode mostrar a inconsistência dessa noção “quinhentista” que penetrou no senso comum da cidade é da historiadora Arlete Monteiro Assumpção, em sua tese de mestrado de 2003, intitulada: “A ocupação dos imigrantes nos arredores da São Paulo Railway”:

“Transferida a Vila de Santo André da Borda do Campo e sua população para São Paulo de Piratininga, em 1560, passaram as terras da extinta vila ramalhense a ser um bairro paulistano: o bairro rural da Borda do Campo”

Se as duas citações forem colocadas lado a lado, vão revelar a inconsitencia da história tradicional da região, bem como o carater elitista dessa “invenção das tradições” (já denunciada em postagem anterior). Não é preciso muito esforço intelectual para perceber isso. Se, conforme Arlete Monteiro, a Vila foi incorporada á São Paulo de Piratininga, como é possível ver uma continuidade histórica que leve á uma conta de 458 anos?

Outra coisa: onde estão os indicios materiais que comprovem a localização exata da antiga Vila? Existem os documentos, é verdade. Porém, duas perguntas: onde eles estão? Eles comprovam exatamente onde era a Vila? A julgar pelo que está escrito no livro “A Cidade que Dormiu Três Séculos” de Armando Gaiarsa, a resposta é não. O autor indica pelo menos nove documentos indicando a possível localização da Vila.

Os argumentos aqui colocados me permitem perguntar porque não há uma discussão mais profunda ou continuada a respeito de certos aspectos da história e do imaginário de Santo André. Por que, mesmo as administrações ditas populares ou de esquerda aceitaram e assimilaram fatos que, a principio parecem tão forjados?

A quem serve essa farsa?

Uma resposta posível pra essas perguntas talvez seja a seguinte: historicamente, o Brasil sempre idolatrou herois europeus inidividuais (Dom Pedro, Pedro Alvares Cabral e outros…) do que as maiorias que, de fato, construiram a história do país (negros e indios, por exemplo). No caso andreense, foi mais fácil reconhecer João Ramalho (um português) do que, por exemplo, os opérarios, os caipiras que, de fato, fizeram a cidade.

Na minha opinião, se Santo André quiser de fato entender sua história e identidade precisa definitivamente resolver esses impasses. Em tempo, a afirmação e cultivo da verdadeira história local pode ser importante para ampliar os vinculos das pessoas com a cidade e, assim, estimular a participação e apoderamento popular da cidade.

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Para quem quiser aprofundar mais o assunto, segue abaixo uma monografia de Sandra Perez a respeito do assunto:

Resumo em português

O objetivo dessa dissertação é estudar como ocorreu a formação e a cristalização da memória da cidade de Santo André, a partir de 1938, quando ocorreu a mudança da sede do município de São Bernardo para o distrito de Santo André. A partir desse momento, a elite intelectual da cidade, liderada pelo historiador Octaviano Gaiarsa, desenvolveu uma explicação para a origem da cidade, relacionando o município atual com a vila quinhentista de Santo André da Borda do Campo, que havia sido a primeira do planalto. Através dessa relação, a atual cidade de Santo André teve e tem a sua existência justificada, superando qualquer resistência à mudança de nome e de sede. Do mesmo processo fez parte a elaboração dos símbolos da cidade hino, brasão e bandeira; a escolha do herói fundador, João Ramalho; a adoção da data de 8 de abril como aniversário da cidade, a criação dos lugares de memória – a Praça do Quarto Centenário, a construção de estátuas dos heróis quinhentistas e a adoção de seus nomes em ruas e bairros. Analisando a historiografia andreense e comparando-a com a paulista, produzida principalmente no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, podemos indicar que a criação da memória da cidade de Santo André demonstra o uso político do passado.

 

Link: Tese Usp – Sandra Perez

 

O ABC E O PRECONCEITO

Três noticias veiculadas pela mídia do Grande ABC me chamaram atenção. Uma delas traz dados do IBGE apontando que ¼ da população do ABC é composta por migrantes. A outra diz respeito ao aterramento da parte inferior de um viaduto onde se instalavam usuários de drogas.  A terceira notícia, que é a mais recente, relata que moradores de um condomínio de alto padrão estão se mobilizando para mudar o trajeto do monotrilho. Os assuntos em questão, situados em datas diferentes e com temas distintos, se unem por uma mancha de preconceito; seja de forma direta ou indireta.

 

No caso das duas primeiras matérias jornalísticas o preconceito não está relatado na matéria e sim nos comentários referentes á ela; desfia-se um verdadeiro rosário de ignorância e preconceito, onde nomes fictícios escrevem mensagens de ódio contra nordestinos e usuários de drogas; tudo isso com completa conivência do Diário do Grande ABC que simplesmente tira o corpo fora com a seguinte mensagem: Este comentário não representa a opinião do Diário do Grande ABC, a responsabilidade é do autor da mensagem. Em outras palavras, o DGABC abre espaço para manifestações preconceituosas e não está nem aí para as consequências que elas podem trazer.

 

Na terceira matéria, veiculada pelo jornal Bom Dia, o preconceito aparece claramente nas falas dos entrevistados. Um deles, identificado como membro de uma associação diz que “Não existe um principal temor, mas existem preocupações diversas como segurança, comércio informal, privacidade e a própria desapropriação em si” Ou seja, o entrevistado entende como temor o pobre e tudo aquilo o que – na cabeça dele – está ligado a pobreza, como o comércio informal e a violência. E mais: o leitor também entende como temor a possibilidade de desapropriação, como se viesse a ficar desabrigado caso sua casa tivesse que ceder lugar ás obras.

 

Nos três casos, há um detalhe em comum: a maneira como o preconceito é manifestado.

 

Nos três casos, o outro – seja ele o migrante, o usuário de drogas, o público que usa transporte público – é visto como um empecilho, que precisa ser excluído ou eliminado, não podendo, sob hipótese nenhuma, fazer parte do convívio ou disputar espaço com os “normais” (não migrantes, não usuário de drogas e condômino).

Alguns autores afirmam que o preconceito fica adormecido nos seres humanos até a hora em que a competição ou necessidade de defesa em relação ao diferente surge e que a maioria das pessoas que manifesta algum tipo de preconceito se mostra gentil e amistosa com o “outro”.

 

O Grande ABC, mosaico de etnias e grupos sociais distintos, que vão desde os italianos até os nordestinos, sempre viveu sob uma atmosfera de manifestações de preconceito. Cabe lembrar que, em um passado não tão remoto, um dos “produtos” do ABC mais difundidos nacionalmente era o grupo nazista “Carecas do ABC”, que hoje –mesmo pouco difundido– continua a promover ações de ódio e intolerância.

De acordo com a historiadora Ana Maria Dietrich, em seu livro “Caça às Suásticas – O Partido Nazista em São Paulo sob a mira da Polícia Política” citado em matéria do jornal ABCDMaior, a cidade de Santo André abrigou uma célula do Partido Nazista nos anos 30.

 

Um leitor mais precipitado poderia dizer que o preconceito é inerente á condição humana e que não há muito o que se fazer. Nesse caso, o preconceito no Grande ABC poderia ser visto como mais um entre tantos, o que é não é bem verdade, pois se existe em todo o ser humano o gérmen do preconceito, é fato que existe a solidariedade, o respeito, enfim. A discussão sobre a natureza humana é muito ampla para taxarmos qualquer coisa.

 

Essa discussão se assemelha a tantas outras que dizem que “pobre tem em todo o lugar”, que “congestionamento é normal” e serve, de certa maneira, para encerrar o debate sobre o que o Grande ABC pode fazer para minimizar ou dirimir certos problemas. É claro que não se pode esperar que a região crie normas próprias para acabar com o racismo, mas – dentro do que se pode fazer – cabe tomar medidas, como  – por exemplo – criminalizar as manifestações de preconceito e exclusão em repartições e equipamentos públicos, evitando que fatos como os ocorridos no ano passado, onde negros convidados para solenidade do dia da Consciência Negra ficaram de fora da Câmara de Vereadores porque a sessão foi repentinamente suspensa.

 

Não me lembro, também, de projetos educacionais que tratassem desse tema junto ás crianças do Ensino Fundamental!! Pode ser até que tenha existido, mas de tão pequeno, talvez nem tenha sido noticiado.

 

Nas programas de governo dos candidatos a prefeito das eleições do ano passado, o item “combate ao preconceito”, se apareceu, foi de maneira muito abstrata e sem apontamentos práticos.

 

Ou seja, Santo André, assim como o Grande ABC, se revela muito incompetente, pois nem o mínimo que pode fazer para combater o preconceito é feito.  Será que vai ser preciso outra ação dos carecas para que algo que seja feito?

 

Links:

Um quarto da população do ABC é migrante – Diário do Grande ABC, 21/10/12 

Viaduto é aterrado para espantar usuário – Diário do Grande ABC, 12/10/12

Moradores querem mudar traçado do monotrilho – Jornal Bom Dia, 9/11/12

Partido Nazista teve atuação em Santo André – ABCD Maior, 10/08/2010

Negros são barrados na Câmara de Santo André – ABCDMaior, 22/11/12

 

 

Um quarto da população do Grande ABC é migrante

Um quarto dos moradores do Grande ABC não nasceu aqui. De acordo com dados do Censo 2010 divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 630 mil pessoas se mudaram para uma das sete cidades em busca, principalmente, de melhores oportunidades de emprego e escolaridade.

A maior parte dos migrantes veio do Nordeste (67,30%). São pelo menos 423,6 mil moradores desse perfil espalhados pela região. A segunda colocação no ranking ficou com aqueles que migraram dos demais Estados do Sudeste – 131,3 mil moradores (20,90%). A região tem ainda 59.698 pessoas vindas do Sul, 8.932 do Centro Oeste e 5.719 do Norte.

Os números do Grande ABC seguem tendência nacional. A pesquisa destacou que 35,4% da população brasileira não reside na cidade onde nasceu. São Paulo é o Estado que mais recebeu migrantes na última década – 5,6 milhões de pessoas. Atualmente, são cerca de 8 milhões de não naturais residentes na metrópole paulistana – número que corresponde a 19,37% da população. Desses, cerca de 60% são do Nordeste.

Entre as sete cidades, a maior parte dos migrantes escolheu São Bernardo (31,79%). São 200,1 mil moradores com essa característica no município – um quarto da população, sendo 134,4 mil oriundos do Nordeste.

Diadema é a cidade que concentra a maior proporção de não-nascidos no município. Praticamente um terço dos moradores são migrantes – 124.630 pessoas.

Enquanto isso, Santo André recebeu 21,07% daqueles que saíram de sua cidade de origem rumo ao Grande ABC, Diadema 19,80%, Mauá 18,17%, Ribeirão Pires 3,70%, São Caetano 3,58% e Rio Grande da Serra 1,86%. Dos prefeitos eleitos, Paulo Pinheiro (PMDB), de São Caetano, é migrante baiano.

Entre os migrantes nordestinos, a maior parte saiu de sua cidade de origem em ação de fuga da seca e também em busca de emprego e educação.

SECA

Enquanto nas décadas de 1960, 1970 e 1980 o atrativo era a industrialização, atualmente, a região chama atenção pelos canteiros de obras na área da construção civil, explica o doutor em Ciências Sociais pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e professor da Anhanguera, Valderlei Furtado Leite.

Já aqueles que deixaram suas residências em outros Estados do Sudeste procuram escolarização e trabalho qualificado, segundo o especialista.

Nordestinos fogem da seca e buscam trabalho

O conhecido destino do nordestino também foi o escolhido pela família da estudante do último ano de Rádio e Televisão, Isabel Sales, 38 anos. Há cerca de 30 anos, a moradora do Jardim Zaíra 6, em Mauá, deixou o Ceará com os pais e 12 irmãos fugindo da seca e com a esperança de melhores condições de trabalho e vida.

“Não foi fácil”, diz Isabel. Segundo a estudante, que tinha 11 anos na época em que deixou sua cidade de origem, a impossibilidade de pagar aluguel e a dificuldade de conseguir emprego obrigaram a família a se mudar para o loteamento conhecido como Chafic, área de risco mauaense. “Tenho inúmeros vizinhos com história de vida parecida com a minha”, destaca.

Apesar das dificuldades e de lutar desde a juventude pela regularização do espaço em que vive, Isabel revela que aprendeu a amar o lugar. “Nunca voltei ao Ceará. Me apaixonei por São Paulo”, garante.

Link da notícia: Diário do Grande Abc

A industrialização transformou a região

Foi durante as décadas de 50 e 60, período em que a industrialização no Brasil era forte e ativa, que o Grande ABC deu um grande passo, evoluiu e deixou sua marca na história. Devido às situações favoráveis como grande quantidade de terras planas oferecidas às empresas a preços baixos, proximidade do Porto de Santos, rápido acesso rodoviário interligando o porto com o mercado consumidor (São Paulo) e a existência de mão-de-obra local, a região agregou grandes empresas, a maiorparte delas do ramo automobilístico e têxtil, e tornou-se um dos maiores pólos industriais do país. Diário OnLine A partir daí o ABC entrou em fase de mudanças. A região campestre que antes era habitada por poucas pessoas, rapidamente se desenvolveu, passou a agregar muitos moradores, e as árvores deram espaço às centenas de casas e prédios residenciais e comerciais. De acordo com o levantamento feito pelo engenheiro Paulo Ferreira Lopes, da Diretoria de Engenharia da Prefeitura de Santo André, no início da década de 1940 já existiam na região 15.121 prédios e 362 fábricas. Odair Vituri, 63, que nasceu e desenvolveu todas as atividades em São Caetano do Sul, inclusive trabalhou e se aposentou em uma das indústrias automobilísticas da região, lembra-se bem dessa época. “Comecei a trabalhar com 13 anos. Naquele tempo (década de 1950) era comum iniciar a vida profissional muito cedo, tirávamos a Carteira Profissional do Menor e com 14 anos já podíamos ser registrados. Com as diversas indústrias instaladas na região os moradores tinham emprego garantido. Não faltava trabalho. Isso fez com que pessoas de outras regiões se aglutinassem nas cidades do ABC aumentando a população local e transformando a arquitetura da região”. O morador conta que sempre se preocupou com o desenvolvimento da região e os problemas que essa intensa migração poderia causar no futuro. “Não tínhamos mecanismos para medir o crescimento populacional, mas notávamos que a cada ano chegava mais gente. Com o tempo começaram os problemas, o principal deles: desemprego, muitos trabalhadores para poucos postos”. Segundo a pesquisa feita por Lopes, no período pré-industrial a população de todos os distritos aumentou consideravelmente. Em 1942, 90.726 pessoas habitavam a região. Dessas, 20.460 eram operários. Como Santo André agregava mais fábricas na época, estava na frente em número de habitantes e dividia com São Caetano a força industrial. Hoje o Grande ABC conta com mais de 2,5 milhões de habitantes, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) que enfrentam a crise do desemprego. Segundo Vituri, na década de 40 houve o surgimento do pequeno comércio no Grande ABC. “Açougues, alfaiates, mercearias, sapatarias e pequenas lojas de conveniências começaram a surgir próximas às indústrias, pois já havia muitos consumidores que não podiam se deslocar para a capital paulista, que era mais desenvolvida, somente para comprar roupas e alimentos”. Mesmo com a proximidade entre o ABC e a cidade de São Paulo, o morador ressalta que a dificuldade de locomoção era muito grande devido à falta de condução. “Não tínhamos como ir e vir a todo o momento. Não havia tantos ônibus com destinos diferentes e as avenidas estavam começando a serem construídas. Neste caso, a alternativa foi começar a se desenvolver, não podíamos esperar para iniciar o processo de transformação da região”. Hoje, “o Grande ABC é considerado uma região desenvolvida que ainda sofre algumas restrições, mas provou, em seu tempo, que era capaz de acompanhar a evolução”, ressalta Vituri.

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Rememorando o Grande ABC

“Grande ABC Paulista”, assim ficou conhecida a região que se situava acima da serra do mar. Terras que durante muito tempo foram protegidas pelo português João Ramalho, para que não fossem invadidas pelos europeus logo que o Brasil foi descoberto e colonizado, em 1500. Conforme a história oficial, no começo havia apenas uma grande mata fechada que, após séculos, transformou-se em uma das regiões mais industrializadas do país.Do Diário OnLine

Tudo começou em 1890, quando a região começou a ser dividida. Neste ano foi fundado o distrito de São Bernardo do Campo e, vinte anos depois, já existia o distrito de Santo André (incluindo os atuais municípios de Santo André, São Caetano e parte de Mauá). A partir daí, o Grande ABC, que em 1553 foi nomeado de Vila de Santo André da Borda do Campo, dividiu-se em sete cidades (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Mauá, Diadema, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) e, até o início da década de 60, todos os municípios se emanciparam e conquistaram independência político-administrativa.
Mas, para contar como foi a evolução da região, ninguém melhor do que os próprios moradores que, direta ou indiretamente, construíram a história dos bairros onde cresceram. A cantora e compositora Manilce Lalli, 78, que aos 12 anos mudou-se para a cidade de Santo André, onde mora até hoje, relembra como era a região na sua infância: “Havia poucas casas, as ruas eram de terra e só as avenidas principais eram de paralelepípedo. Não havia iluminação no local,que era repleto de pequenos vales e represas. Calmo, tudo era muito tranqüilo, não havia o tumulto da cidade grande”.
Essa é a mesma lembrança de grande parte dos moradores que vivem no ABC há mais de cinqüenta anos. Eles acompanharam de perto todo o desenvolvimento industrial e cultural da região e sentem prazer em contar suas experiências, conforme narra o ator Antônio Aracílio Petrim, 65, em entrevista ao Memórias do ABC, grupo de pesquisa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (Imes): “Eu devo dizer que a infância era muito rica nas relações humanas, porque as pessoas se davam muito bem, se ajudavam muito, não havia violência, e, ao mesmo tempo, havia muita pobreza, não havia os confortos dos dias de hoje. Na época nem luz elétrica tinha. Esse foi um período bastante difícil porque era a adaptação dos meus pais para esse lugar industrial. Eram ruas sem asfalto e aquela vida muito simples”.
Um dos problemas da região era a mobilidade, “não havia transporte e tudo era tão longe de casa”, relembra Amélia Nascimento, 71, que chegou em São Bernardo em 1939, quando a sede do município deixou de ser em São Bernardo e mudou-se para Santo André, devido à crescente evolução da cidade. Os são-bernardenses não aceitaram a mudança e rapidamente se movimentaram para que a cidade se emancipasse e a conquista ocorreu em 1945. “Eu era muito pequena e não me lembro do fato com detalhes, mas lembro que todos comentavam que não podiam se conformar com aquela situação. Nesse período me mudei para Mauá e a distância entre uma cidade e outra era tanta que não tínhamos mais notícias dos acontecimentos”.

Amélia passou cinco anos em Mauá e conta com era a infância: “Eu cantava e balançava nas árvores enquanto mamãe lavava a roupa no rio perto de casa. Me lembro que nosso colchão era de capim, minha mãe colocava um saco e nós dormíamos, não tinha tanto conforto como hoje em dia. Para chegar ao centro da cidade tínhamos que andar muito, ainda não havia transporte coletivo e demorávamos horas no caminho”. A cidade conquistou sua independência somente em 1954, mas nessa época Amélia já havia retornado a São Bernardo, onde mora até hoje, e lá acompanhou toda a evolução.
O município de São Caetano do Sul conseguiu autonomia política-administrativa em 1949, após uma consulta popular realizada um ano antes. Odair Vituri, 63, nasceu e cresceu em São Caetano, seus avós colonizaram a cidade da qual o morador tem muitas lembranças. “A região era uma enorme fazenda. Os quintais das casas eram muitos grandes, todos tinham sua própria chácara. Tínhamos nosso próprio pomar no fundo de casa, lá tinha tudo, inclusive variedades de frutas. Aprendi muito sobre cultivar plantas, mas hoje não temos mais o espaço para isso”, comenta.

Ribeirão Pires só foi emancipada de Santo André em 1953, a partir daí a cidade começou a desenvolver-se economicamente, contando com indústrias metalúrgicas, de móveis, plásticas, artefatos de cimento, cerâmica, alimentos e vestuário. Cinco anos depois, em 1958, foi a vez de Diadema conquistar a independência, que também ocorreu após um plebiscito. A última mudança significativa da região do Grande ABC ocorreu em 1963, quando o Distrito de Rio Grande da Serra se emancipou de Ribeirão Pires.

- O início do desenvolvimento
Na década de 1920 é construída a Represa Billings, em São Bernardo. A partir daí, a região começa a se urbanizar e o ABC não parou de se desenvolver. “As árvores, estradas de terra e os vales deram espaço a grandes indústrias, prédios e mais prédios. Com o tempo não ouvíamos mais os passarinhos cantarem”, comenta Manilce.
O Grande ABC deixou de ser uma região campestre e, na década de 1930, começou a agregar várias indústrias . As fábricas de cerâmica marcaram a industrialização de São Caetano. Em Santo André localizava-se grande parte das empresas do ramo têxtil. Mas, a região foi definitivamente marcada como um grande pólo industrial somente em 1950 com a chegada das indústrias automobilísticas, maior parte delas localizadas em São Bernardo do Campo.

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A segunda industrialização

Artigo de Ademir  Médici de 10/03/2012…

E chegamos à segunda metade do século 20 em São Paulo…

E chegamos à segunda metade do século 20 em São Paulo, tão próxima e tão distante – é difícil considerar que este período faz parte do século passado, com tantas e tantas informações bem frescas na cabeça de todos. E a historiadora e professora Tânia Regina de Luca discorre sobre o período, dentro da coleção recém-lançada pelas IOE e Poiesis, debruçando-se sobre alguns pontos básicos, entre eles a industrialização. O ABC, depois Grande ABC, está presente.

“Para as cidades próximas à Capital – Santo André, São Bernardo, São Caetano, Caieiras, Osasco e Mogi das Cruzes – a década de 1950 também se abriu de maneira auspiciosa, uma vez que nelas concentravam-se as atividades siderúrgicas, os produtos de fundição e laminados, os materiais elétricos, químicos, pneumáticos e as câmaras de ar, os fios artificiais e as matérias plásticas, segmentos relativamente novos que vinham se juntar aos mais antigos (móveis, tecelagem, papel e papelão, sabões, velas e produtos químicos) e que permitem compreender o forte crescimento populacional e a importância econômica que a área assumiu no conjunto do Estado, isso ainda antes da implantação da indústria automobilística” (página 18, em que é citado Barjas Negri, autor de tese de doutorado pela Unicamp sobre a concentração e desconcentração industrial em São Paulo, no período 1880 a 1990).

No caso específico de São Bernardo, a abertura da Via Anchieta foi essencial, quando se começa a substituir os trilhos pelo asfalto em todo o Estado.

Professora Tânia cita a poesia de Adoniran Barbosa. E usa a expressão Grande ABC, quando se refere às sete cidades. Ela lembra o parque industrial original e a oferta de terrenos baratos e adequados para novas fábricas.

Em 1960, a Capital respondia por mais de 28% do valor da produção industrial, enquanto ao ABC cabia uma fatia nada desprezível de mais de 8%. Apontava-se para a formação das mobilizações operárias e novas lideranças que chamaram a atenção do País para o Grande ABC.

Companhia Cinematográfica Vera Cruz. As greves iniciadas em 1978. São Bernardo e Santo André entre as mais populosas cidades paulistas. Tudo isso é abordado no trabalho de Tânia Regina de Luca, que ao encerrar a sua narrativa deixa uma pauta ao estudo do novo século e milênio.

A exemplo de seus companheiros de coleção de São Paulo em cinco séculos, professora Tânia segue a orientação do coordenador geral, Marco Antonio Villa, e aponta, em capítulos específicos, os lugares da memória e a bibliografia comentada. São ferramentas úteis para se começar a compreender a evolução paulista. Está tudo lá. Estudantes interessados no tema, não deixem de consultar e estudar essa coleção maravilhosa, que só não fala de futebol.

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RECONHECIMENTO DE PAISAGENS, POR AGUINALDO GONÇALVES, FATIMA LEAL E SUZANA KLEEB

O trabalho que hoje apresento é um dos mais interessantes que já li. Ele traz uma coisa que, ao meu ver, é bastante preciosa: um inventário de bens culturais de Santo André.

Aguinaldo Gonçalves; Fátima Regina Talavella Leal; Suzana Cecília Kleeb

 

 Apresentação

As reflexões que compõem este texto são frutos da atuação de técnicos da Gerência de Preservação de Memória, Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, Prefeitura de Santo André. O foco do trabalho concentra-se na área central de Santo André. Esta é uma cidade que faz parte da região metropolitana de São Paulo e insere-se em uma área popularmente denominada de ABC.

O caminho em prol da identificação de bens de interesse para a memória de Santo André remonta ao início da primeira metade da década de 1980. Em 1981, com o incêndio da Estação de Paranapiacaba, remanescente do período de administração da estrada de ferro que ligava Santos a Jundiaí, pela empresa São Paulo Railway,desencadearam-se discussões sobre a preservação da vila operária de Paranapicaba, que envolvia a estação. Foi organizado um movimento denominado Movimento Pró-Paranapiacaba que, com a mobilização de diversos setores da sociedade, solicitou o tombamento da vila. Tal ação levou ao tombamento, em 1987, pelo Condephaat, Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo.

Nesse mesmo momento, jornais regionais do ABC salientavam a necessidade de se preservar algumas edificações antigas da cidade. Em 1987, o jornal “Diário do Grande ABC” publicou uma série de artigos denominada “Inventários Históricos”. Nesta ocasião, foi apresentada uma listagem de lugares que, eventualmente, pudessem ser preservados, compilada a partir de pesquisa interna ao jornal, coleta de informações junto a técnicos do poder público municipal e memorialistas. (PASSARELLI, 2005, p. 60) Foram listados alguns bens, a maioria deles edificações antigas e de impacto visual na paisagem. No decorrer dos anos, a lista foi sendo modificada e atualizada tanto pelo próprio jornal, como por trabalhos desenvolvidos pela sociedade ou por técnicos da Prefeitura de Santo André.

Na mesma época, em 1987-88, houve um movimento da sociedade em prol da preservação do prédio em que estava instalado o primeiro cinema, instalado no centro da cidade – Cine Teatro de Variedades Carlos Gomes, criado em 1912 e instalado naquele local desde 1925. Com a decadência de cinemas de rua, o destino deste não foi diferente. Em 1987, sua fachada foi destruída e a edificação foi alugada para uma loja de tecidos que se instalou no salão posterior, e um estacionamento que ocupou a plateia e o palco do antigo cinema. O movimento SOS Carlos Gomes contou com um abaixo-assinado de 23.000 assinaturas a favor da preservação da edificação. O resultado dessa mobilização foi o tombamento, em 1992, do edifício pelo Comdephaapasa – Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André. O Comdephaapasa foi criado por lei municipal em 1990 e evidenciou-se como um marco significativo na preservação e valorização do patrimônio cultural de Santo André.

Na década de 1990 foram feitos alguns tombamentos municipais de bens imóveis, a maioria deles datados do começo do século 20, bens públicos e com forte apelo afetivo para parcelas da população. No final dessa década e início dos anos 2000 foram reavaliadas as listagens existentes com vistas a formular uma política de Inventário para Santo André. Estavam à frente dessa ação alguns técnicos ligados ao planejamento urbano e à preservação de memória de Santo André, e alguns Conselheiros do Comdephaapasa. Mas os estudos não foram muito adiante, pois o trabalho era feito de forma intermitente, dependendo-se das possibilidades de tempo de cada um dos envolvidos. Os funcionários tinham outras obrigações e apenas nos tempos livres é que se reuniam para se dedicar a esse assunto.

O respaldo legal para esses estudos e que ensejassem uma proteção de fato para os bens elencados também era frágil. Havia uma determinação para a confecção de um Inventário do Patrimônio Cultural no Plano Diretor do Município, (lei n.º 8.696 de 17 de dezembro de 2004), mas não havia detalhamento do tema. A legalidade se efetivou com a aprovação da Lei n.º 9.071 de 05 de setembro de 2008 que instituiu o Plano de Preservação do Patrimônio Cultural de Santo André e com este se iniciou a organização do Inventário de Bens Culturais de Santo André, estabelecido na mesma legislação. Cabe salientar que essa lei criou um elemento fundamental para que os trabalhos fossem adiante: um corpo de técnicos estável, multidisciplinar e voltado especificamente para a área de patrimônio cultural. Este grupo acessou e analisou todo o material até então produzido, recuperou a história de desenvolvimento das políticas patrimonialistas na cidade e, com o aprofundamento do tema, pôde apresentar uma proposta de Inventário de Bens Culturais.

Nesse texto são apontados alguns dos primeiros resultados do trabalho de reflexão obtido por esse grupo. Trata-se da apresentação das possibilidades elaboradas a partir de um projeto piloto que teve a finalidade primordial de avaliar a metodologia de Inventário que melhor se adequasse a Santo André, cidade multifacetada, com forte pressão imobiliária e com população que vem descobrindo aos poucos a importância da memória e do patrimônio cultural do qual é herdeira.

http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?pid=S1980-44662011000200008&script=sci_arttext

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