Esta é uma republicação de um artigo do dia 8/4/11, no qual discuto a questão do “quinhentismo” de Santo André.
————————————————————————————————————
Há dois meses postei nesse espaço um artigo da Agência Usp de Notícias que questionava a ideia do “quinhentismo” das cidades do Grande ABC. Segue o link: A Farsa dos 400 e tantos anos de Santo André
Hoje, dia de comemoração do “anivérsário” de Santo André, retomarei esse tema e o aprofundarei; sem medo de parecer “estraga festas” ou algo parecido.
Sobre esse tema, começarei com uma citação de Ademir Médici, importante pesquisador da região; em seu livro “Migração, Urbanismo e Cidadania”:
“Hoje, toda a tentativa de explicar esta formação passa pela constatação de que o ABC é uma região de trabalhadores, em todos os setores e municipios Em que pese a tentativa das oligarquias que sempre conseguiram levar essa discussão de formação para o quinhentismo, com a absurda história de que o ABC é a “terra mãe dos paulistas” “
Outra citação que pode mostrar a inconsistência dessa noção “quinhentista” que penetrou no senso comum da cidade é da historiadora Arlete Monteiro Assumpção, em sua tese de mestrado de 2003, intitulada: “A ocupação dos imigrantes nos arredores da São Paulo Railway”:
“Transferida a Vila de Santo André da Borda do Campo e sua população para São Paulo de Piratininga, em 1560, passaram as terras da extinta vila ramalhense a ser um bairro paulistano: o bairro rural da Borda do Campo”
Se as duas citações forem colocadas lado a lado, vão revelar a inconsitencia da história tradicional da região, bem como o carater elitista dessa “invenção das tradições” (já denunciada em postagem anterior). Não é preciso muito esforço intelectual para perceber isso. Se, conforme Arlete Monteiro, a Vila foi incorporada á São Paulo de Piratininga, como é possível ver uma continuidade histórica que leve á uma conta de 458 anos?
Outra coisa: onde estão os indicios materiais que comprovem a localização exata da antiga Vila? Existem os documentos, é verdade. Porém, duas perguntas: onde eles estão? Eles comprovam exatamente onde era a Vila? A julgar pelo que está escrito no livro “A Cidade que Dormiu Três Séculos” de Armando Gaiarsa, a resposta é não. O autor indica pelo menos nove documentos indicando a possível localização da Vila.
Os argumentos aqui colocados me permitem perguntar porque não há uma discussão mais profunda ou continuada a respeito de certos aspectos da história e do imaginário de Santo André. Por que, mesmo as administrações ditas populares ou de esquerda aceitaram e assimilaram fatos que, a principio parecem tão forjados?
A quem serve essa farsa?
Uma resposta posível pra essas perguntas talvez seja a seguinte: historicamente, o Brasil sempre idolatrou herois europeus inidividuais (Dom Pedro, Pedro Alvares Cabral e outros…) do que as maiorias que, de fato, construiram a história do país (negros e indios, por exemplo). No caso andreense, foi mais fácil reconhecer João Ramalho (um português) do que, por exemplo, os opérarios, os caipiras que, de fato, fizeram a cidade.
Na minha opinião, se Santo André quiser de fato entender sua história e identidade precisa definitivamente resolver esses impasses. Em tempo, a afirmação e cultivo da verdadeira história local pode ser importante para ampliar os vinculos das pessoas com a cidade e, assim, estimular a participação e apoderamento popular da cidade.
——————————————————————————————————————————————————————–
Para quem quiser aprofundar mais o assunto, segue abaixo uma monografia de Sandra Perez a respeito do assunto:
Resumo em português
O objetivo dessa dissertação é estudar como ocorreu a formação e a cristalização da memória da cidade de Santo André, a partir de 1938, quando ocorreu a mudança da sede do município de São Bernardo para o distrito de Santo André. A partir desse momento, a elite intelectual da cidade, liderada pelo historiador Octaviano Gaiarsa, desenvolveu uma explicação para a origem da cidade, relacionando o município atual com a vila quinhentista de Santo André da Borda do Campo, que havia sido a primeira do planalto. Através dessa relação, a atual cidade de Santo André teve e tem a sua existência justificada, superando qualquer resistência à mudança de nome e de sede. Do mesmo processo fez parte a elaboração dos símbolos da cidade hino, brasão e bandeira; a escolha do herói fundador, João Ramalho; a adoção da data de 8 de abril como aniversário da cidade, a criação dos lugares de memória – a Praça do Quarto Centenário, a construção de estátuas dos heróis quinhentistas e a adoção de seus nomes em ruas e bairros. Analisando a historiografia andreense e comparando-a com a paulista, produzida principalmente no Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, podemos indicar que a criação da memória da cidade de Santo André demonstra o uso político do passado.
Link: Tese Usp – Sandra Perez